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Médicos, demasiadamente humanos

Médicos, demasiadamente humanos


O filósofo Martin Heidegger sentenciou que o homem morre a partir do momento em que nasce. É a única certeza que temos e que assalta a mente a partir do momento em que uma enfermidade grave bate às nossas portas como evidência fatal do Destino. E os médicos, melhor do que ninguém, têm esta sombria antevisão ao lidarem diariamente com a dor de seus pacientes e as incertezas dos familiares que sofrem juntos com os seus na beira do leito hospitalar. Intensidade maior atinge os especialistas em Oncologia, que convivem com doentes expostos a tratamentos com efeitos colaterais de toda ordem, doloridos e sofridos, e que alcançam maior dramaticidade em sua fase terminal.


Tratar ou não tratar?


Tratar ou não tratar o paciente?


Com tudo isso, os médicos conhecem todo o roteiro, desde as estratégias de luta contra o mal, a intensidade e os efeitos das drogas, a violência do tratamento abalando o físico e o emocional de pacientes e até dos familiares. E também carregam consigo a consciência de que um dia poderão estar do outro lado, em um leito onde clamam pelo fim, pois também não suportam mais o calvário diário. Sabem que são humanos e que também terão o mesmo Destino apregoado por Heidegger. Muitos não querem passar por essa estrada.


Então, vem a seguinte pergunta: se são capazes de ministrar todos aqueles medicamentos em seus pacientes, por que rejeitam o tratamento e optam por irem para casa, onde poderão viver felizes seus últimos momentos junto aos que o amam? Ali poderão administrar as dores do corpo e terem melhor qualidade de vida, preparando-se para o desenlace de uma forma mais tranquila.


“Como os médicos morrem?”


“Como os médicos morrem?”


Em seu blog, a médica oncologista clínica Ana Lucia Coradazzi abordou de forma concisa e sensível a questão no artigo “Como os médicos morrem?” em seu blog, que teve ampla repercussão entre médicos, enfermeiros, pacientes e familiares de enfermos que viveram ou vivem a cruel realidade das situações limítrofes da existência. Ela relata que, após complementar sua formação através de uma especialização em Cuidados Paliativos, sua vida “nunca mais foi a mesma”, aprendendo que a morte não precisa ser tão triste, tão amarga. E que todo sofrimento pode ser amenizado através da empatia e do apoio incondicional. O convívio diário com pacientes portadores de câncer é algo tão valioso que, a meu ver, tem que ser compartilhado”.


Motivada pela leitura de um artigo do médico Ken Murray, da University of Southern California, também professor assistente de Medicina da Família, passou a estudar de forma aprofundada a premissa de que “os médicos não gostam da ideia de morrer, tanto quanto qualquer outra pessoa”. Conforme Murray, que em 2011 lançou o livro “How Doctors Die” (“Como Médicos Morrem”), seus colegas de jaleco convivem de perto com as limitações da Medicina moderna de perto, com a consciência de que as tentativas de prolongar uma vida podem frequentemente resultar em um tratamento e sofrido para desaguar na inevitável morte.


Traduzido em vários idiomas, o livro colocou o médico no centro dos debates, recebendo resenhas no “The New York Times”, “The Wall Street Journal” e “The Washington Post”, além de uma enxurrada de mensagens de leitores dos periódicos e dos blogs que reproduziram suas ideias. Diversas pessoas se manifestaram sobre “familiares à beira da morte sendo atacados por drogas tóxicas”, além de destacarem as ofertas de “procedimentos dolorosos por nenhuma razão”. Centenas de histórias de médicos e cuidadores profissionais se alinharam com a tese de Ken Murray.


A médica Ana Lucia Coradazzi enfatiza que a grande diferença entre os enfermos “comuns” e os médicos está não nas múltiplas possibilidades de tratamentos a que têm acesso em comparação com os outros pacientes, mas com relação a quanto menos tratamentos eles próprios se submetem. Médicos tendem a ser mais serenos e realistas quando encaram a possibilidade de morrer. Eles sabem exatamente o que vai acontecer, conhecem suas opções, e geralmente têm acesso a todos os tratamentos disponíveis. Mas partem suavemente, de forma quase que submissa, afirmou.


“Futilidade médica”


“Futilidade médica”


A oncologista clínica destaca também que, com todos os avanços e recursos médicos e tecnológicos disponíveis nos hospitais, os médicos sabem o suficiente para conhecer os limites, compreendendode forma profunda o que as pessoas mais temem: morrer em grande sofrimento e sozinhas. E acrescenta que os “médicos costumam falar sobre isso com seus familiares. Deixam claro que, quando for sua hora, não querem ninguém quebrando suas costelas na tentativa improvável de ressuscitá-los. Muitas vezes, falam sobre isso poucas horas após eles próprios terem feito exatamente isso com seus pacientes, algo que ela própria confessa já ter feito.


- A maioria dos médicos já viu (e praticou) demais o que chamam de “futilidade médica”, que acontece quando é usado todo o arsenal mais moderno disponível para uma pessoa gravemente doente, que está claramente no final de sua vida. Eles já viram pessoas sendo cortadas, perfuradas com tubos e agulhas, colocadas em máquinas barulhentas (e sedadas para suportar a tortura), além da infinidade de remédios correndo em suas veias. E morrendo poucos dias (até horas) depois. Eu já ouvi de colegas angustiados frases como: “Prometa-me que, se um dia eu estiver nessa situação, você vai me deixar partir. Não deixe que façam isso comigo” – destacou Ana Lucia Coradazzi.


Decisão drástica


Quando o paciente decide abandonar o tratamento


Algumas frases são recorrentes na comunicação dos médicos com os pacientes e seus familiares. São pedidos para que o profissional faça tudo que estiver ao seu alcance, utilize todas as estratégias que conhecer sobre determinado caso. Qual seria a abordagem, porém, se o médico entendesse o pedido de outra forma, como algo no sentido de aliviar toda a dor de quem não mereceria passar por um sofrimento prolongado e inútil?


Segundo Ana Lucia, o mesmo problema de comunicação é estabelecido quando o médico pergunta ao paciente se deseja continuar com o tratamento. O terror pode se instalar se disser “não”, pois poderá imaginar que será abandonado pelo médico e morrerá sofrendo e sozinho. A questão que se coloca é que tudo poderia ser diferente a partir de um diálogo diferente, com o paciente respondendo afirmativamente ao médico se a pergunta fosse outra, como, por exemplo: “A sua doença não está respondendo aos tratamentos que temos tentado, e eles estão deixando você ainda mais debilitado do que o próprio câncer. O que você acha de pararmos de nos preocupar com sua doença e focar nossos esforços para melhorar ao máximo a sua convivência com ela?”.


Cuidados Paliativos


Cuidados Paliativos


Para a Dra. Ana Lucia, somente os médicos sabem o que acontece depois. Eles tendem a não aceitar tratamentos excessivos e com poucas chances de sucesso. Muitos buscam formas de morrer em suas próprias casas, esmerando-se no controle da dor e outros sintomas, buscando significado para suas próprias vidas e oferecendo o melhor de si às pessoas a quem amam”. Conforme acentuou em seu artigo, “a própria literatura médica oferece base para esse tipo de decisão. Estudos têm demonstrado que pessoas com câncer hospedadas em hospices ou acompanhadas por serviços de Cuidados Paliativos vivem mais (e melhor) do que aquelas com o mesmo diagnóstico que recebem tratamentos oncológicos até o final da vida.


 




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